Morador privatiza praça no Morumbi
Associação põe guarita, fecha trânsito e cobra de prédios até R$ 4 mil por segurança em área pública
Felipe Oda, felipe.oda@grupoestado.com.br
No guia
de ruas, a Rua Professor Alexandre Correia, na Vila Andrade, zona sul da
capital, dá acesso a uma praça de uso público e à Rua Pio II. Mas na realidade,
a via foi transformada em condomínio fechado e a área verde municipal, em
playground da Associação dos Moradores da Villa Monteverde, formada por
moradores da Professor Alexandre Correia.
Guaritas impedem que pedestres e veículos não autorizados circulem pela rua e
grades cercam a praça de uso particular dos “condôminos”. No local há 25 prédios
de luxo e os moradores pagam uma mensalidade, entre R$2.200 a R$ 4 mil por
prédio, para a Associação, responsável pela manutenção e segurança da via.
Gilberto Maurano, de 60 anos, morador e representante da associação, afirma que
no local não há um condomínio e o espaço não é particular. “Qualquer pessoa pode
entrar na praça ou circular pela rua.” Ontem à tarde, a reportagem do Jornal da
Tarde foi impedida de entrar na rua para fotografar a praça, pois não tinha
autorização interna de um morador.
“É uma arbitrariedade. Eles alegam que não são um condomínio, mas cobram até
mesmo na Justiça pela contribuição dos moradores, que deveria ser voluntária”,
diz Alfredo Mimessi, de 60, morador da rua e presidente da Associação Brasileira
de Condomínios, Síndicos e Empresas Afins (Abracond). Além da cobrança, o
advogado cita que a falta de guaritas nos prédios - há apenas a guarita na ponta
da rua - caracteriza um condomínio. “Algumas imobiliárias, inclusive, negociam
imóveis da rua como se estivessem num condomínio fechado.”
Para Cláudio Bernardes, vice-presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP),
a implementação de um condomínio na via é irregular, mas a existência de uma
associação de moradores não. “Lá, não poderá ser um condomínio nunca, pois a via
dá acesso a uma área verde de uso coletivo. Já a associação é regular, mas a
cobrança de taxa de condomínio não. Nesse caso, as contribuições devem ser
voluntárias”, afirma Bernardes. Alguns moradores reclamam que a associação os
obriga a pagar. “O rateio da associação é creditado junto com o condomínio do
meu prédio”, diz o engenheiro Thyrso Camargo.
O próprio Maurano diz que a praça cercada e as guaritas existem há pelo menos 20
anos e confirma o interesse em fechar a rua. “Cuidamos do local desde pelo menos
1986. Cercamos a praça, mas todos podem usá-la. Fazemos a manutenção e a
segurança de um local que era abandonado pela Prefeitura.”
A Subprefeitura do Campo Limpo diz que já enviou notificação à associação
exigindo a retirada das guaritas. “As grades serão mantidas, mas já intimei que
um portão seja aberto com saída para a Rua Pio II”, afirma o subprefeito, Luiz
Ricardo Santoro. O prazo para retirada se encerra nesta semana.